Porque os hop tests se tornaram imprescindíveis após uma lesão do membro inferior
Os hop tests ocupam atualmente um lugar central na avaliação funcional do membro inferior, especialmente após reconstrução do ligamento cruzado anterior (LCA) e durante a preparação do retorno ao desporto (RTS). Simples de aplicar, de baixo custo, reprodutíveis e próximos das exigências reais do desporto, permitem objetivar o desempenho monopodal em situações dinâmicas.
Tanto em contexto clínico como no terreno, complementam eficazmente as avaliações analíticas (força isocinética, mobilidade, teste muscular manual), acrescentando uma dimensão funcional essencial. A sua utilização generalizou-se na fisioterapia desportiva, tanto em atletas de alto rendimento como em praticantes recreativos.
Contudo, por detrás desta aparente simplicidade, persistem várias questões:
- Deve utilizar-se um teste isolado ou uma bateria de hop tests?
- Todos os testes medem o mesmo aspeto funcional?
- Quais são os limiares do Limb Symmetry Index (LSI) realmente pertinentes?
- Os valores normativos são fiáveis?
- É possível prever o risco de recidiva com base num único teste?
Da observação clínica às baterias estruturadas: uma evolução metodológica
Os hop tests não foram inicialmente concebidos como uma bateria padronizada. Nas décadas de 1970 e 1980, as avaliações funcionais baseavam-se sobretudo na observação clínica e em descritores qualitativos por vezes imprecisos (“can do / cannot do”, “normal / asymmetrical / unable”), expondo os resultados a um importante viés dependente do examinador.
Um ponto de viragem importante surge com os trabalhos de Noyes et al. (1991), que introduzem uma abordagem quantitativa e reprodutível. Demonstram que um teste isolado carece de sensibilidade: cerca de 50 % dos pacientes com rutura do LCA obtêm um resultado normal no Single Hop Test. A solução proposta consistiu na utilização de uma bateria de testes e na introdução do Limb Symmetry Index (LSI) para comparar o desempenho do membro lesionado com o membro saudável.
Esta abordagem melhorou significativamente a relevância clínica.
Posteriormente, Itoh (1998) enriqueceu a metodologia ao integrar exigências mais próximas da realidade desportiva: mudanças de direção, pivôs, desacelerações e solicitações multiplanares. A sensibilidade diagnóstica aumentou de forma considerável.
Por fim, Gustavsson (2006) introduziu a dimensão da fadiga e da potência máxima para responder a uma questão clínica central: quando autorizar o retorno ao desporto? Uma vez que muitas lesões ocorrem sob fadiga, tornou-se pertinente avaliar o paciente em condições mais exigentes.
Esta evolução histórica explica por que razão os hop tests estão atualmente organizados em clusters estruturados, cada um respondendo a limitações metodológicas previamente identificadas.
Uma fonte frequente de confusão: o mesmo nome, protocolos diferentes
Um aspeto frequentemente subestimado é a variabilidade dos procedimentos.
Tomemos como exemplo o Side Hop Test: dependendo do protocolo, pode avaliar principalmente a velocidade e o ritmo… ou o controlo e a estabilidade. As distâncias, as instruções, a posição dos braços, os critérios de estabilização final e o número de tentativas podem variar.
Consequentemente, dois “Side Hop Tests” realizados segundo protocolos distintos não são comparáveis.
A ausência de consenso internacional quanto aos procedimentos explica:
- Redundâncias entre testes
- Heterogeneidade nos resultados publicados
- Dificuldades de interpretação na prática clínica
Compreender a evolução metodológica dos hop tests permite clarificar estas diferenças e evitar comparações inadequadas.
O Limb Symmetry Index (LSI): um referencial pragmático, mas imperfeito
Face à diversidade de protocolos e à impossibilidade de dispor de valores normativos universais, o Limb Symmetry Index (LSI) impôs-se como uma solução pragmática.
Definição:
LSI = desempenho do membro lesionado / desempenho do membro saudável × 100
O LSI apresenta boas propriedades métricas (ICC elevados, SEM e MDC aceitáveis) e permite reduzir os enviesamentos relacionados com idade, sexo ou nível desportivo.
Na literatura, são frequentemente citados vários limiares:
- 85 %
- 90 %
- 95 %
O limiar de 90 % é atualmente o mais utilizado como referência para considerar uma progressão para fases mais exigentes do retorno ao desporto após reconstrução do LCA. Contudo, estudos recentes demonstram que este limiar não constitui nem uma condição suficiente nem uma garantia de segurança.
Aos 6 meses pós-operatório, uma proporção significativa de pacientes não atinge os 90 %, apesar de uma evolução clínica favorável. O LSI deve, portanto, ser interpretado como um marco clínico e não como um critério absoluto.
Valores normativos: úteis, mas limitados
A utilização de valores normativos provenientes de coortes publicadas pode parecer interessante. No entanto, estes valores variam consideravelmente em função de:
- Modalidade desportiva
- Idade
- Características morfológicas
- Protocolo exato utilizado
Em certos contextos (atletas de elite, assimetrias pré-existentes), o membro contralateral nem sempre constitui uma referência fiável.
Estão a emergir abordagens alternativas, como modelos matemáticos personalizados que integram peso e altura para estimar um LSI teórico específico do paciente.
Em qualquer caso, nenhum valor deve ser interpretado isoladamente.
Recomendações práticas para o fisioterapeuta desportivo
A literatura converge num ponto essencial:
Para avaliar a função do membro inferior, devem ser utilizados pelo menos dois hop tests, desde que sejam fiáveis, pertinentes e adaptados ao perfil do paciente.
A escolha deve ter em consideração:
- A modalidade desportiva
- A fase do retorno ao desporto
- As exigências específicas (velocidade, pivôs, resistência)
- O contexto clínico global
O objetivo não é aumentar o número de testes, mas melhorar a sua pertinência e reprodutibilidade.
Rumo a uma abordagem integrada do retorno ao desporto
As baterias de hop tests representaram um avanço importante na objetivação do desempenho funcional. Contudo, a sua capacidade preditiva isolada relativamente ao risco de nova lesão permanece limitada.
A literatura recente evidencia uma evolução clara:
👉 passar de uma lógica de desempenho isolado
👉 para uma lógica de perfil funcional global
A decisão de retorno ao desporto já não pode basear-se num único teste, mesmo que bem padronizado. Deve integrar:
- Critérios clínicos
- Controlo sensoriomotor
- Défices de força
- Perceção do paciente
- Exigências específicas da modalidade desportiva
Os hop tests deixaram de ser um fim em si mesmos, sendo antes uma ferramenta entre outras no âmbito de uma avaliação funcional estruturada.
Conclusão
Compreender a evolução histórica dos hop tests, os seus clusters metodológicos, as implicações do LSI e as limitações dos valores normativos permite ao fisioterapeuta desportivo construir uma bateria simples, pertinente e adaptada a cada paciente.
Quando bem utilizados, os hop tests continuam a ser ferramentas poderosas de objetivação funcional. Quando mal interpretados, podem gerar uma falsa sensação de segurança.
O desafio atual já não é apenas medir o desempenho, mas integrar essas medições num raciocínio clínico global, individualizado e fundamentado na evidência científica.
👉 O artigo completo apresenta uma análise aprofundada dos clusters históricos (Noyes, Itoh, Gustavsson), dos limiares numéricos do LSI, das propriedades métricas e inclui tabelas e ilustrações que clarificam as diferenças metodológicas entre protocolos.
Referências-chave
Noyes FR, Barber SD, Mangine RE. Am J Sports Med. 1991.
Gustavsson A et al. Knee Surg Sports Traumatol Arthrosc. 2006.
Rambaud AJM et al. Int J Sports Med. 2020.
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